27 de março de 2012

Aos circenses

As torres empresariais são os bicos bicolores das tendas, que se esticam e abanam suas bandeiras.  As ruas e avenidas são o picadeiro; repleto de arte e seus respectivos artistas. As árvores e pássaros e estátuas são nossa plateia - muda, triste, morta, diante de um espetáculo deprimido. Os automóveis, ônibus, trens, motos... nossos cavalos; quão arredios! Galopamos. Demonstramo-nos uns aos outros e nos fazemos rir. A vida, o público pagante. O suicídio, o escape por debaixo da tenda; nada gentil. As mulheres, o espetáculo secundário. Os homens, bobos com as calças nos joelhos. É assim, vivemos em um teatro de espelhos que deformam nossos corpos, confundem nossos olhos e nauseiam nossa mente. O que parece ser, na verdade, não é.

Os malabaristas manipulam a visão. Piruetas, mãos ardentes e agilidade. No farol, nas favelas, debaixo do viaduto, em becos, empresas - vale tudo  em troca de pão. Há aqueles que desprendem a atenção e num piscar de olhos nos roubam o ganho. Um fato: a arte, muitas vezes, vai pela contramão.

Os palhaços estão à margem; dos rios, da ponte, na linha do trem e da sociedade. O mendigo de mão esticada por uma esmola esconde um homem indefeso de nariz vermelho, que chora. Ele quer nos fazer rir, mas não queremos o escutar. O desesperado, que costura sua morte com a tênue linha da vida, não teve suas piadas compreendidas. Aquele que se afoga, não consegue viver sem a alegria. Os outros, que com esforço conseguem suprir a expectativa do público, consideram-se ótimos na profissão. Heróis, que com um sorriso crasso fazem de conta que não são bobos, não! No fim, nós queremos apenas um pouco de espaço; e para isto, nos vestimos e nos comportamos feito palhaços.

O equilibrista, este sim, engloba a grande parte do mundo. Com boa vista e pernas fortes, é aquele homem que arrisca, pois tem a certeza de que irá triunfar. O otimista, boa gente. Normalmente, nos irrita - sempre há uma rede para apoiá-lo. De qualquer forma, em uníssono levanta os rostos para lhe observar, e o show nunca desaponta. Está firme, o pé em ponta, desafiando aquilo que nos é frágil demais para brincar. Entretanto, a vertigem e a existência assim, tão submissas sob o poder de um homem, são tudo o que queremos experimentar.

Há barulho, aplausos, emoções e olhos que lagrimejam. Encobertos por cores e cheiros doces, sobrevivemos assim ao incerto. Cercados por números e surpresas, que nos arrancam com toda a força o fôlego, saboreamos os momentos que nos são presenteados. Estamos sim, anestesiados, portanto não nos preocupamos com os bastidores. Porém, tamanha é a mágica desta incerteza, que não nos damos conta do sofrimento que enfrentam tais trabalhadores. Não paramos para pensar, diante do rufar dos tambores, quão difícil é sustentar tantos pormenores e dores. O circo causa dor. A cidade, grande rancor. A sociedade, um espetáculo decerto incolor, mas ainda assim belo o suficiente para nos manter espectadores.

Os artistas choram. Os cidadãos imploram - Olhai por nós, grande Mestre de Cerimônias! Anunciai todos os dias vosso espetáculo celestial.  Que os leões desdentados, os elefantes mau humorados, os macacos esfomeados e as moças fugidas da casa de família não nos façam mal. Estamos sob vosso olhar assim, lutando por caipiras que paguem à vista e sempre voltem uma vez mais. Que as ciganas e seus cristais anunciem boa sorte. Que façamos, não somente mais um número, mas sim outro e outro e outro... Até que não haja mais aplausos. Pois estes cessam, emudecem, e então é nossa hora de amarrar a lona e torcer para que o vento bata e nos leve - bem leves! - para vosso anoitecer.

A cidade não pára, não paramos. Estamos todos, soberanos, sob o feitiço circense. Bradai, imensas e cintilantes estrelas! Vocês são a beleza que prende todos os olhares. Vocês são o motivo, a razão pela qual novos artistas nascem. Estes chegam chorando, mas logo aprendem a arte de sorrir. E aprendemos, caros circenses, a infinita arte de nos apresentar em troca de reconhecimento. Queremos, apenas, sonhar. Queremos, à penas, um gole de encanto. Queremos, enfim, que o circo nunca mais nos deixe a sós.
 
Feliz Dia do Circo, Bonjour Circenses!

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